Manipuladura

Por : Salvatore D' Onofrio

Como a mitológica Hidra de Lerna, serpente de múltiplas cabeças, a pobreza se multiplica nas sociedades primitivas ou de pouca cultura.  O herói Hércules cortava uma cabeça do terrível monstro e logo nasciam outras. Nosso Governo está oferecendo a bolsa família para aliviar o sofrimento da classe mais necessitada, mas, não promovendo o planejamento familiar, mais crianças desamparadas vêm ao mundo povoando os bolsões de miséria, celeiros da criminalidade. O caminho certo seria cortar o mal pela raiz, fazendo uma maciça campanha pela paternidade responsável e colocando as crianças na escola oito horas por dia, dando-lhes, além da instrução básica, também educação artística e esportiva. Só se elimina a miséria familiar e social lutando contra a ignorância, a matriz do desemprego, da violência, da corrupção política e de outros males.

O poeta e cronista Ferreira Gullar inventou um neologismo que caracteriza bem o regime político que, sob várias formas, há séculos vigora no Brasil: a “ Manipuladura ” , que seria a ditadura da manipulação. O que chamamos de democracia é apenas uma substituição da ditadura das armas pela ditadura através do voto. Quem sempre governou e continua se apossando do dinheiro público é uma oligarquia que usa o poder econômico para manipular os meios de comunicação e comprar o voto popular em troca de favores para se perpetuar no mando político. Cria-se, assim, um círculo vicioso: a grande massa popular é pobre porque vota mal (não escolhe como seus representantes pessoas honestas e competentes) e vota mal porque é pobre e desinformada, deixando-se explorar por políticos gananciosos e hipócritas.

Este círculo vicioso leva o Brasil, apesar do seu invejável progresso tecnológico, a ocupar quase o último lugar no Índice de Desenvolvimento Humano, estando apenas na frente da Bolívia e do Haiti, na América do Sul. É pura ilusão pensarmos sair desse impasse sem uma profunda Reforma Política ou esperarmos que tal reforma seja feita pelos detentores do poder. É simplesmente hilário assistir ao espetáculo circense das campanhas eleitorais para a escolha do próximo Presidente. Que diferença faz eleger Dilma, Serra ou Marina se quem faz as leis é o Parlamento, composto por deputados e senadores interessados apenas em defender seus interesses individuais e corporativos? Irão continuar o mercado dos partidos de aluguel, o financiamento interesseiro da campanha eleitoral, as licitações manipuladas, a ocupação de cargos públicos sem concurso, nepotismo e apadrinhamento, a imensa desigualdade na remuneração dos servidores públicos.

Como há tempo venho defendendo, somente uma reforma política, feita não por políticos profissionais, mas pelas forças vivas da Nação (representantes de todas as classes sociais), teria condição de lançar as bases para a construção de uma cidadania de verdade, onde reine a ordem, a justiça social, a Meritocracia. Nunca deveria ser permitido legiferar em causa própria. Portanto, os constituintes não poderiam ocupar cargos públicos. O sonho de alcançarmos um nível de civilização onde os princípios democráticos fossem realmente postos em prática, já vivido por alguns ideólogos do passado, como Platão ou Jesus Cristo entre outros, parece hoje em dia realizável graças aos modernos meios de comunicação. A Internet, tirando o ser humano do isolamento, pode promover a transparência, obrigando os homens públicos a demonstrar a origem das imensas fortunas acumuladas ao longo de seus mandatos. A falta de instrução do eleitorado permite a crença no discurso inverídico dos que fazem da política um meio de enriquecimento às custas de quem realmente trabalha e produz.

Salvatore D' Onofrio
Dr. pela USP e Professor Titular pela UNESP
Autor do Dicionário de Cultura Básica (Publit)
Literatura Ocidental e Forma e Sentido do Texto Literário (Ática)
Pensar é preciso e Pesquisando (Editorama)
saldo1@ig.com.br

www.salvatoredonofrio.com.br

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