SEM TEMPO

Por : ROBERTO ROMANELLI MAIA

Acordei às  três da manhã com o barulho da chuva em minha janela.

Ouvia claramente cada gota, como se elas estivessem a encher um copo sem fundo.

Tentei pegar novamente no sono mas foi em vão.

Tinha passado a hora. 

Esqueci a chuva e pensei:  a pior velhice não era a da idade mas aquela que nos invade, que se apossa do nosso ser na intimidade, no

esvaziamento da motivação de criarmos e de agirmos no dia a dia.

Até a cozinha com alguns poucos utensílios ainda por lavar me parecia algo distante, impossível de ser enfrentado.

Lavar alguns pratos e copos, nenhuma tarefa tão difícil, mas ao mesmo tempo nada me atraia, nem me  seduzia.

 

Não sentia a tão propalada solidão; era algo diverso, um vazio, um vácuo sem explicação clara, racional.

Parecia caminhar sobre uma estrada que sabia, antecipadamente, que não acabaria nem levaria a lugar nenhum.

Perambulava pelo apartamento, em busca indefinida mas ao mesmo tempo me sentia distante, como se a ele não mais pertencesse, nem

jamais  estivesse estado ali.

Meu pensamento estava há milhares de quilômetros, distante, numa floresta gelada, sem a presença humana, olhando, exigindo, cobrando,

interferindo sem ser chamada para tal.

A neve caia e apesar do frio sentia um calor que não podia explicar.

Ele me mantinha vivo e desperto.

Meu olhar captava cada nuance, até o final do horizonte; buscava encontrar a presença de outro tipo de vida, como se não pertencesse a

nenhum outro local que não aquele.

Lembrava que os lugares que sempre frequentei desapareceram; minha nostalgia ou saudade era reprovada pelo  mundo e pelas pessoas

que faziam questão de viver sempre o hoje e o amanhã, nunca o ontem,que já havia passado...e estava morto...

Queria porque queria encontrar na imensidão gelada, que se perdia além do olhar, um outro ser de um outro planeta, que desconhecesse

tudo sobre a Terra e que não soubesse das explosões em Gaza, da longa marcha de soldados ucranianos e de guerrilheiros ávidos e prontos

para se matarem, de um Dunga morto e ressuscitado, e de um Datena cada dia mais agressivo e intolerante. De uma Dilma que ao se olhar

no espelho soubesse que ela mesma não acredita no que diz e faz.

Queria chegar a uma outra estrela, a um outro planeta, onde pudesse começar do zero sem nada anterior, nem passado, nem presente, nem

futuro. Atemporal.

Queria poder respirar o ar puro, sem a presença de tanto lixo a minha volta e de gente que ganha com ele cada vez mais.

Queria...mas acordei de um sonho impossível! Triste e pronto para, cada vez menos, sonhar!

 

 

Por : ROBERTO ROMANELLI MAIA

ESCRITOR, JORNALISTA E POETA

 

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