UTOPIA

Por : Roberto de Queiroz

O vocábulo "utopia" foi forjado pelo filósofo e escritor inglês Thomas More (1480-1535) para titular um livro de sua autoria, escrito em 1516. O autor formou esse vocábulo pela justaposição de dois termos gregos: "ou" (não) e "tópos" (lugar). Grosso modo, ele significa "não lugar", ou seja, "lugar que não existe". É o termo pelo qual More idealizou uma sociedade deveras harmônica, estável e funcional, em que todos os membros são comprometidos com o bem-estar coletivo. Nessa sociedade idealizada, a realidade se funde com a fantasia. O autor sugere, portanto, que a utopia não pode ser concebida como um projeto realizável no mundo real, e sim como uma entidade circunscrita numa ilha imaginária.

 

Para escrever Utopia, Thomas More inspirou-se nas narrações do navegador português Rafael Hitlodeu, que navegara com Américo Vespúcio e, numa de suas últimas viagens, aportara no litoral da América enquanto Vespúcio retornava à Europa. No ensejo, Hitlodeu visitara muitas regiões e conhecera uma ilha cuja posição geográfica ele não revelou. Após esse feito, Hitlodeu encontrou-se com More em Antuérpia, local em que o autor estava de passagem. O encontro entre eles foi mediado por Pedro Gilles e resultou num longo diálogo, o qual se divide em duas partes: na primeira, More tece duras críticas à sociedade em que vive e almeja uma sociedade perfeita; na segunda, consta a narração de Hitlodeu sobre a ilha que conhecera com todos os detalhes.

Em Utopia, todos vivem em perfeita concórdia, pois praticam as virtudes da temperança e da moderação. Ninguém deseja mais do que tem, porque cada um tem exatamente o que necessita. O sistema político, a organização das famílias, a divisão das tarefas, a alimentação, a saúde, etc., fluem de maneira harmoniosa. Embora imaginária, a ilha de Utopia apresenta um modelo de sociedade concebido com base na razão. Parece ser um exercício mental elaborado por More para solucionar um problema causado pelo atrito entre a realidade e a fantasia. O autor reflete sobre a realidade político-social dum país em que a razão possa resolver com isenção as questões de interesse coletivo sem interferência do autoritarismo do rei ou da Igreja.

Para tanto, ele sugere a criação duma sociedade utopista. Isso porque o pensamento utópico, por um lado, nutre-se duma realidade político-social; por outro, alimenta-se da fuga para um mundo ideal. Melhor dizendo, a utopia é uma espécie de jogo entre um real que se rejeita e um ideal que se deseja. A sociedade utopista, por ser idealizada, não escapa de permanecer circunscrita num "não lugar" e na "descontinuidade histórica", a exemplo da cidade de Platão, em A República, e da ilha de Thomas More, em Utopia. A obra de Platão, embora escrita antes da obra de More e, portanto, antes da criação do termo em apreço, é uma utopia, uma vez que discorre sobre a criação duma cidade governada por reis-filósofos e procura formular uma resposta ideal para o conceito de justiça.

Em suma, a utopia configura um modelo extemporâneo de sociedade, sem possibilidade de existência no tempo e no espaço. Ela sugere a ideia de que é possível expulsar desse mundo idealizado todo tipo de prática nociva, proibida ou indesejável à sociedade. O projeto da utopia torna-se inexecutável por causa de sua fragilidade na tentativa de homogeneizar valores, princípios e virtudes, com o desígnio fantasioso de fazer ausência definitiva dos conflitos político-sociais que antes eram presença e de conceber um jardim do Éden sem serpente.

 

*Professor de português e escritor. Autor de "Leitura e escrita na escola: ensino e aprendizagem", Multifoco, 2016, entre outros. E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.