OS AFOGADOS DE MARIANA

Por : Paschoal Motta

 ( O equivalente a quase 25 mil piscinas olímpicas de lama foi despejado nas redondezas próximas à barragem que se rompeu na cidade de Mariana, em Minas Gerais.

(Brasil Ambiente, 09-11-2015

 “Na agonia de achar oxigênio, os peixes subiram barrancos, rãs fugiram da água. Tinha um monte de cascudo com a cabecinha na pedra, procurando oxigênio, um do lado do outro.

José Francisco Abreu, pescador no Rio Doce)

1. Em Mariana, a opulência é sol no dobre dos sinos...

NEM SEI SE LAMA NAS ALMAS,

NEM SEI SE LAMA DE HUMANOS,

NÃO SEI SE XINGO OU BLASFEMO,

NEM SEI SE CHORO OU ME CALO.

 

 

A NATURA NÃO DÁ SALTOS

PARA AUTO SE CONSTRUIR

    POR CENTENARES DE SÉCULOS;

    NUM DIA, O HOMEM DESFAZ...

 

EIS O MEU VALE DE LÁGRIMAS,

AFOGANDO A ESPERANÇA

NA ENXURRADA DA GANÂNCIA.

     ESSA, MARCO DE AGONIAS:

  

ROMPERAM LAGOS DE LAMA,

BORRAS DE MINERAÇÃO,

COM VERMELHO DO ANJO MAU,

CASTIGANDO, DURO, O POVO:

 

ONDE O CALDO SE ESPALHOU,

NÃO BROTA NEM TIRIRICA.

TUDO ARIDEZ NESTAS BANDAS,

EM FONTE, RIBEIRO E RIO.

 

COM AS GENGIVAS VERMELHAS,

A LAMA ENGOLE O NA FRENTE;

E A AGONIA DAS ÁGUAS

JÁ PEDE SOCORRO EM VÃO...

 

 

2.

 

Ai vozes, vagas tristezas! Ai cemitérios tão frios!

 

DESCE UM PRANTO DE FINADOS

DESDE O ITACOLOMI.

NO RIO GUALAXO AFORA,

LAGRIMO COM OS AFOGADOS.

 

ADEUS, RIBEIRÃO DO CARMO,

SEM AS NINFAS DOS POETAS;

AS ÁGUAS NÃO SÃO MAIS ÁGUAS

E NEM SERÃO DE NINGUÉM.

 

DESTAS MONTANHAS TÃO MINAS,

COM TERRA, REJEITO E LODO,

ORA ESCORRE O NÃO DEVIDO,

DE CRATERAS ESGOTADAS.

 

OCULTO OS MEUS OUVIDOS

DOS TROVÕES DE UM DEUS IROSO.

QUER OS CASTIGOS CELESTES

PRA QUEM BOLE A NATUREZA.

 

ELA ACUSA POR ESTRAGOS,

SEM SABER A QUEM CONDENA.

SE MACHUCA, SENDO VIVA,

NA LEI GERAL DO PLANETA.

 

ASSIM, DESDE LÁ NO ÉDEN

DA LENDA DO PARAÍSO.

SOMOS UNS FILHOS INGRATOS;

CUSPIMOS NO NOSSO ALMOÇO.

 

MAIS PADECE O INGÊNUO JUSTO

PELO INJUSTO PECADOR;

REBENTA A PARTE MAIS FRACA

DA CORDA DESSA GANGORRA.

 

3.

 

O ouro gastou-se e é pedra, vence ponteiro e relógio...

 

NO TRIPUÍ, LOGO ACIMA,

BROTOU OURO DE SOBEJO;

CATARAM PLACAS TÃO BASTAS

COMO SE LÍNGUA DE VACA.

 

PELAS BEIRAS, REBRILHAVAM

DO BANDEIRANTE O ANSIADO.

NEM NOS SANTOS DE PAU OCO,

NEM NAS BURRAS CABERÃO.

 

QUANTA MATA DERRUBADA,

QUANTA MONTANHA ESTUPRADA,

QUANTA AREIA EMPORCALHADA

QUANTA RIQUEZA ROUBADA.

 

O OURO COM SEU FASCÍNIO,

O OURO COM SEUS AVAROS;

O OURO PRENHAVA AS BURRAS

DA GANÂNCIA DO ESTRANGEIRO.

 

O OURO COM SEU DELÍRIO,

TAMPAVA O SOL DO BOM-SENSO;

ESCRAVOS NÃO DAVAM CONTA,

E CHIBATAS ESTRALAVAM...

 

A FOME, A SEDE, A ILUSÃO.

O OURO DO SUOR SALOBRO

SUMIU LONGE, ALÉM-MAR;

E O POBRE EM MOR POBREZA.

 

4.

 

Ouvidas vozes tão vivas, memórias de barro e ouro...

 

TRADIÇÃO SOBRA É NA OBRA

DAS MÃOS DE ALEIJADINHO.

SEUS PROFETAS JÁ PREVIAM

AS NOSSAS HORAS FUNESTAS

 

DESSA GLÓRIA TRANSITÓRIA

EM OPULÊNCIA E PODER.

PREVIRAM OS DIAS DE IRA,

DE CHORO E RANGER DE DENTE.

 

E DEU NO QUE HAVIA DE DAR,

COM FÚRIA DE ESCAVADEIRA,

DINAMITE, O ESCAMBAU,

DE APRESSAR O DESARRANJO.

 

E O ESGOTO DAS BARRAGENS,

QUE NEM VESÚVIO EM POMPEIA,

RECOBRE CASA, RIO, GENTE,

ESCOLA, IGREJA E FUTURO.

 

A MULHER E O SEU FOGÃO,

O HOMEM E A SUA HORTA.

A MENINA E A BONECA,

A BOLA COM SEU MENINO.

 

O ROCEIRO E SEU PLANTIO,

O VAQUEIRO E SUA CRIA,

A ENXÓ DO CARPINTEIRO

SE ATOLA COM UM CACHORRO.

 

NA MORTE, TODOS SE IGUALAM,

MAS JAMAIS NA INJUSTIÇA...

DINHEIRO ALGUM SALDARÁ

SAUDADE DE QUEM NÃO VOLTA.

 

OS RESÍDUOS DAS LAVAGENS

COBREM O BENTO RODRIGUES.

VIÚVA, A MÃE NATUREZA,

NÃO ACHA A QUEM APELAR.

 

PERECESSE APENAS UM,

JÁ CHEGAVA PRA CHORAR.

OS OSSOS DOS SOTERRADOS

TÉ PERDERAM CRUZ DE TUMBA.

 

5.

 

Preces não são necessárias ao ar que vem de outros dias...

 

SENHORA DA CONCEIÇÃO,

SENHORA DA BOA MORTE,

NADA MAIS PODEIS FAZER

PELA MÃE SEM A MENINA.

 

NÃO TEM PEDRA SOBRE PEDRA,

EM CINCO POVOAÇÕES;

UMA LAMA PEGAJOSA

LAMBUSA NOSSA ESPERANÇA.

 

O QUE É MEU NÃO É MAIS MEU,

NEM DA GAIOLA O CANÁRIO;

NEM A GALINHA NO CHOCO,

NEM LAMBARI NO REGATO.

 

A FOLHINHA DE MARIANA

SE AFOGOU NO DIA CINCO;

VIVEREMOS NUM SEM DATA

COM OS IRMÃOS AFOGADOS.

 

E ENTORNA A MERDA MANHOSA,

ENGOLFANDO O DOCE RIO

PARA O MAR DA DESMEMÓRIA

DE HOMENS ENGRAVATADOS.

 

PARA ESCAPAR DA SUJEIRA,

AS RÃS, PIABAS, CASCUDOS,

SALTAM PRA FORA DO RIO,

MORREM SEM ÁGUA NA PRAIA...

 

FRANCISCO DE ASSIS DOS BICHOS,

MARIA, MÃE DE JESUS,

SENHORA MERCÊS DE CIMA,

QUEDÊ VOSSA SANTIDADE?

 

DEBAIXO DO BARRO MAU,

SÓ A SAUDADE PERDURA

NUM RETRATO DA AMADA,

DE VIAGEM SEM RETORNO.

 

6.

 

Ai vozes sempre veladas! Ai cavalgadas noturnas!

 

E APORTAM AUTORIDADES

EM CARROS COM BATEDORES;

OLHAM, POR ALTO, O CIRCO

ARMADO PELA GANÂNCIA.

 

OS MORTOS NÃO CLAMARÃO

PELAS BOCAS ATOLADAS.

E OS FEUDAIS ESQUECERÃO

AS PRIMÍCIAS PROMETIDAS,

 

7.

 

Ai vozes, vagas tristezas! Ai cemitérios tão frios!

 

COMO DE PRAXE COMETEM.

COMO DE PRAXE PROMETEM,

COMO DE PRAXE LAMENTAM,

COMO DE PRAXE SE VÃO...

 

OH, ANTIGA IMPREVIDÊNCIA

DE QUEM É IMEDIATISTA.

QUE MILHÃO HÁ DE PAGAR

MINHA CASINHA TÃO SIMPLES?

 

- QUEDE O VASO DA ROSEIRA?

- MEU RETRATO DE CRIANÇA?

- A TREMPE DE MEU FOGÃO?

- O BALANÇO DOS MENINOS?

 

OS ESCAPADOS DA LAMA

NEM PROCURAM SEUS QUINTAIS.

A CASA E A LERDA CANCELA

E SEU JARDINZINHO DO LADO.

 

SE EU ME ESCAPEI POR SORTE,

CHORO UM CHORO ACUMULADO:

POR MEU MENINO PEQUENO,

INDA APRENDENDO FALAR.

 

QUALQUER UM PERDE UM SEU BEM,

MESMO SENDO UM CATRE VELHO;

SÓ NÃO TEM CONSOLAÇÃO

SE NELE NASCEU SEU FILHO.

 

OS SALVADOS DA BARRAGEM

SÃO GENTE DE NADA HAVER,

MAS SEU PARCO SOTERRADO

NO LODO CUSTOU FORTUNA.

 

AI MORTE COM SUAS MANHAS,

AI DEJETOS DO MALIGNO...

AI CORRENTES DA DEMÊNCIA,

AI TÁBUA SEM SALVAÇÃO.

 

Ó RAÇA DE DURA INSÂNIA

NUNCA SABE O QUE DE HUMANO;

JAMAIS SE LEMBRA DOS SIMPLES

QUANDO VAI BUSCAR O FERRO...

 

TODA A LIDA RIBEIRINHA

DO AMARGADO RIO DOCE

VAZA EM TREDA TRANSIÇÃO

DE NEM MILAGRE ESPERAR.

 

FABRICO UM BARCO DE SONHOS,

MAS NAVEGO, JÁ SEM RUMO,

COM OS MORTOS DE MARIANA,

SOS, NUM DILÚVIO DE ABSURDOS.

 

Os versos em epígrafe, em cada parte, são do poema Cantilena Para Mariana, do mesmo autor.

 

 

Paschoal Motta, professor, escritor, reside em SPF-BH.

11-11-2015.

Contato com o Autor:  O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.