RELAÇÃO ABUSIVA É PERDA DE IDENTIDADE

 

Por : Mia Malafaia

De acordo com o Mapa da Violência (2015), o Brasil apresenta taxa de 4,8 homicídios para cada 100 mil mulheres, ocupando a 5ª posição num grupo de 83 países. Apenas El Salvador, Colômbia, Guatemala e a Federação Russa evidenciam taxas superiores às taxas brasileiras. 

Normalmente, diante de uma ameaça, a reação de um indivíduo deveria ser a evitação, contudo, no contexto conjugal o que acontece é a repetição de ocorrências de violência contra a mulher. 

 

 

O rompimento de uma relação violenta pode durar anos, considerando que muitas mulheres podem continuar com seus companheiros devido à dependência financeira, ao medo de morrer, já que sofrem ameaças, à espera pela mudança do comportamento do companheiro, à vergonha de assumir o fracasso do relacionamento ou à dependência emocional. Muitas mulheres deixam de denunciar por apresentarem a percepção de que a autonomia sobre sua vida não lhes pertence, além disso, algumas acreditam serem culpadas pela violência sofrida e outras sequer percebem que estão em situação de violência.

 

Os efeitos da violência psicológica são obstáculos muito duros; para uma mulher que escuta o tempo inteiro que não tem valor, que é xingada, que tem sua aparência física debochada e suas capacidades intelectuais menosprezadas, pode ser muito difícil compreender que a situação da violência não é parte da vida e não deve ser aceita. Muitas vítimas acabam acreditando que devem suportar as agressões, pois – como o seu agressor lhes diz – nenhuma outra pessoa atribuirá a elas qualquer valor. 

 

Além do fator psicológico, muitas mulheres não possuem alternativas concretas e nem conseguem receber auxílio para deixarem o contexto em que sofrem agressões. Desde a falta de suporte da família, até a falta de recursos financeiros, muitos elementos se juntam e criam um verdadeiro muro de isolamento.

 

Para aquela mulher que tem filhos com o agressor, a situação é ainda mais difícil, pois dificilmente a justiça funciona com rapidez para garantir a proteção e o afastamento do indivíduo que violenta a mulher. Muitos abusadores usam os filhos como brecha para se aproximarem da vítima e muitas vezes essa única oportunidade acaba com a morte da mulher e até mesmo das crianças.

 

Por trás de cada mulher que "perdoa" o homem que a violenta e insiste no relacionamento, há toda uma sociedade ensinando que mulheres devem tolerar o comportamento agressivo dos homens e que se elas se dedicarem, esses mesmos homens podem mudar. Há negligência, falta de informações e falta de suporte real por parte de amigos e familiares. Por trás de cada vítima que continua com seu agressor, há uma mente destroçada e falta de autonomia.

Fato:

1) Se a mulher não romper esse seu relacionamento,vai continuar aquela situação de relacionamento abusivo.  

2) Se  não houver ajuda para a mulher romper esse relacionamento abusivo, essas  mulheres continuarão sofrendo em suas relações.

 

É importante que a mulher saiba que o amor não vai controlar nem abusar. Se isso está acontecendo, o amor não é reciproco. Apenas um está amando dentro desse relacionamento. 

Quando digo que a mulher tem que se voltar para si mesma, falo da recriação da sua identidade. Em relacionamentos abusivos, as mulheres voltam o seu mundo para o agressor e assim permanece, até o choque de realidade a atingir.

 

Um motivo que é muito pertinente é que as vítimas não conseguem acreditar que o agressor é assim. Elas sempre vão buscar motivos para justificar o que ele fez. Entretanto, a única justificativa plausível pelo o que ele fez é que ele é responsável pelas atitudes que tem e isso faz parte da personalidade dele.

 

Elas sempre vão acreditar que o agressor está sendo sincero quando diz que vai mudar, pede desculpas e afirma que não vai acontecer de novo. Isso só caracteriza a manipulação e a violência emocional que ele pratica.

 

É importante salientar que os relacionamentos abusivos podem trazer problemas mesmo depois de seu término. Não é possível prever o que a pessoa agressora pode fazer depois.

Sair de um relacionamento abusivo é libertador, mas complicado de se fazer. A mulher terá que buscar todo o apoio possível, seja de amigos e parentes ou especializada, e ir cortando todos os laços que tem com o agressor.

 

Mia Malafaia é escritora, radialista e palestrante.

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Mia Malafaia

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