POLÍTICA E POLÍCIA

Por : Salvatore D'Onofrio    

            O revês na Lava Jato, com a soltura de presos políticos, inclusive com a possibilidade de libertação do próprio ex-presidente Lula para disputar novo mandato, revela que "o Brasil infelizmente corre o risco de voltar a ser  o País da impunidade, onde quem deveria cuidar da coisa pública são os seus principais predadores" ("Amargo retrocesso", Diário da Região, 29/6). O termo  grego "pólis", que corresponde ao latino "civitas" (cidade), deu origem aos substantivos política e polícia, bem como a nomes com esse prefixo (poligamia, polifonia, etc.). Eles contêm a noção de pluralidade, estabelecendo uma forte relação semântica com Democracia ou República, o governo da "res" (coisa) pública. Quer dizer, o homem (ou a  mulher) que adentrar o campo da política ou da polícia deveria estar preocupado com o bem da coletividade e não com interesses individuais ou de grupos.

 

            Mas, em países subdesenvolvidos, isso não acontece porque o instinto egoísta do ser humano faz prevalecer a lei do mais forte, própria da animalidade, levando ao abuso da força, do poder. O homem torna-se lobo do próprio homem, conforme a famosa afirmação do comediógrafo latino Plauto (254-184 a.C) "homo homini lupus", retomada pelo filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679). Para superar tal impasse , no seu livro "Leviatã", ele sustenta a tese da necessidade de uma autoridade estatal inquestionável à qual os membros da sociedade deveriam sacrificar suas liberdades individuais para assegurar a defesa comum. Mas a história nos mostra que Nações dominadas por um Leviatã, um soberano absoluto, tipo Stálin ou Hitler, tiveram péssimos resultados.

            Mais produtivo é o ensinamento de seu coetâneo e conterrâneo  John Locke: a sociedade humana é o resultado de um contrato implícito, acordado entre indivíduos iguais em direito e deveres. O Estado deveria ser governado pela cooperação espontânea de todos os cidadãos, abolindo-se qualquer forma de patronato. Tal visão sociopolítica mantém relações complexas quer com o socialismo, como com o liberalismo, promovendo  o espírito de revolta contra qualquer forma de autoritarismo político ou religioso. Não podemos nos esquecer da ponderação do dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956),"desgraçado o povo que necessita de heróis", pois ela é confirmada pela realidade histórica. E contra fatos não há argumentos. Pouca gente sabe quem é o chefe do governo dos países mais desenvolvidos (Suécia, Noruega, Dinamarca, Austrália, Nova Zelândia...) porque tais nações são administradas por técnicos concursados, que não devem favores aos chefões políticos de plantão.

            O ser humano não nasce livre e civilizado. Tal se torna se e quando começar a pensar nas conseqüências de seus atos, não reconduzindo ao poder políticos desonestos ou incompetentes, não colocando no mundo filhos que não possa educar. O problema central é que as instituições, que deveriam  controlar a vida social policiando e castigando quem infringir as normas éticas, deixam muito a desejar. Os Ministros da Suprema Corte, preocupados em defender "a presunção de inocência" de corruptos condenados a dezenas de anos de prisão por apropriação indébita do dinheiro de nossos impostos, que deveria ser destinado a melhorar assistência médica, educação, transporte coletivo, segurança púbica, não se sensibilizam com o sofrimento de milhões de brasileiros que vivem na pobreza. A sociedade brasileira está lenta em tomar consciência de que ninguém pode ser feliz no meio da incoerência, da injustiça e da miséria, para dar mais valor ao bem público do que ao particular. Só nosso voto responsável poderá começar a mudar tudo o que está aí!

O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.