TIRADENTES CONTINUA VIVO E FALA

Por : Paschoal Motta

Este 21 de abril é da celebração dos 226 anos do enforcamento no Rio de Janeiro, do Alferes Joaquim José da Silva Xavier, chamado Tiradentes (1746-1792), como o principal envolvido no movimento político conhecido como Inconfidência. Os conjurados se reuniam na antiga Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar do Ouro Preto, para planejar o Brasil livre da dominação colonialista portuguesa. O Alferes Joaquim José da Silva Xavier é considerado o protomártir morto pelos ideais  da democratização do Brasil.

 

 

 

 

  Gasto melhor este tempo no aguardo da hora final; galgarei, mais esclarecido a escadaria do patíbulo, no oferecido exemplo de leal filho da Pátria-Mãe, dela vassalo, e dela só. Confesso: por mais revelo de entremeio inteira recordação, entrelinhavada na frase, no soltar língua, se entrelaça soma de resultado acontecido, por vir suceder. Padeço sereno, forte, decidido; mas, antes, sem pavoneio, homem no similhante de qualquer vivente, que morte aborrece; é existência a valida. Noutro mundo, espero confiante salvação dessa agrura; só dele desconheço modo de convivência; fica nesta cá qualquer valência. Por tal, careço procurar, tanto quanto agulha num palheiro, vida de alguma diferente forma, pelo menos por via de lembrança de minha alma, missão, no desfilar do futuro, de irrestrita procura pela liberdade, deste entranhado carinho pela pessoa próxima, maiormente desvalido da sorte. Homem sou como boi ou outro animal: o pobre berra no fio da faca, igual chispa espavorida formiguinha do pé esmagador. Evita a vida a morte; dela para esquecer, careço de abundante facúndia.

  Discorri com Doutor Maciel respeitante suas trazidas novidades europeias. Arrepiei carreira para Minas Gerais em trote sem esmorecimento, enquanto suportava a cavalgadura. Ia indo perguntando, a quantos calculei acertado: se a América Inglesa conseguiu sacudir fora do lombo o fardo do jugo anglicano, por que não similhante processo no Brasil, com brasileiros? Era querer cada um, de mão dada.

  Pessoa de duvidosa reputação, olhado, visto assim, suportei viver em Villa Rica, mesmo ostentando patente de alferes, mesmo bastante procurado pela referida habilidade em tirar, pôr dentes; suponho, aquilo sucedeu por sucessos no particular, máxime amorosa, familiar; ainda também por frequentação em casas de bordel, antes e na campanha do levante, causa do íntimo trato com escravos, razão desta postura  brasileira destabocada, atroado, sem freio na língua. Té por parte de um, outro aderente do movimento restaurador da Pátria podia advir determinado desprezo, desvio de minha pessoa, por minha pessoal conduta. Afinal, ali no convívio de altos projetos com doutores formados em leis, superiores militares, sábios padres, eu chegava de mascateação, curador com raiz, casca, pomada, tira-dentes prático. E ainda: um militar de encravada carreira, um sem bunda alisada em banco de aula, um sem tonsura de ordem no cocuruto, um sem nome em relação de irmandade religiosa; um solto, um caipora rezando seu rosário de perda e esperança. A bem da verdade, aliás, quem viveu misturado, embolado com o povinho nas ruas, nos matos, nos demorados caminhos, em cima de lombo de cavalo, traseiro calejado de sela, consegue dispor de tempo em haver recurso na ilustração da inteligência? Somente depois, crescidinho, vim entender necessidade de organizado estudo. Para revolucionar um país precisava, em demasia, acima que puro entusiasmo, despregada fala.

  No Pombal, lá de igual modo, eu, no meio de sete irmãos de sangue, digo: seis, chegados ao mundo por amor de meu pai Domingos da Silva dos Santos e de minha mãe Antônia da Encarnação Xavier, que guarde cada qual em glória Deus, nesta ordem de entrada: Domingos, quando eu somava oito, contava quinze e me clareou nas primeiras letras; Maria, quando eu tinha oito, vivia em doze; o Joaquim José aqui, no meio da ninhada; o José Joaquim, quando eu crescia em oito, chegava aos seis; Eufrázia, quando eu ia por oito, andava aos três; Antônia, quando eu saía dos oito, nem ainda aos dois somava idade. Deles, agora, só recordação saudosa numa embaçada fumaça, numa infantil rememoração.

Lá no Pombal, cada qual oferecia a seu modo mão de auxílio no desempenho de negócios legados por nossos genitores, em lavra, eito, curral, o mais aparecido para despacho na melhor possível sobrevivência. Escola, então, assim existindo, pouca foi aula em casa; breve, sim, a da praça de São João Del Rey, em motivo de difícil, perigoso caminho; té para passagem de gente adulta, em necessidade de viagem, caminhos pedrentos, esburacados, mal frequentados. Dois irmãos mais velhos acabaram decididos estudar, ordenar em padre no Seminário Nossa Senhora da Boa Morte, em Mariana, como já referido; deles todos em desde que abracei, peito aberto, manga arregaçada, a causa da revolução geral, sumiram, de nem largar rastro, sombra, bilhete de adeus. Disso jamais incrimino um deles, censuro quem seja. Perseguidos, escorraçados, escaparam, desapareceram, sabe Deus, por simples razão da irmandade com pessoa condenada. Conhecem onde enfiam nariz; não tão beócios em demorar na redondeza de Villa Rica, em sendo meus afins em sangue próximo; demorar por lá, enquanto multidão, em similhante aperto, foge espavorida, ainda no caso dessa odiosa devassa, das garras da temível Alçada. Deles, afinal, me apartei de primeiro, por imposição deste inquieto ânimo, acolitado, assim dizendo, na urgência de ganhame em dinheiro, posse; me impor como homem de bem, meu dote de nascença.

 

(do livro Eu, Tiradentes, PASCHOAL MOTTA, Ed.  Lê, 3ª. edição, esgotada, BH, 1994)

 

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