NOVA ORDEM SOCIAL

Por : Salvatore D' Onofrio 

 Na época em que a presidente Dilma estava para sofrer o impeachment, escrevi um artiguinho apoiando o movimento popular  "Nem, nem", nem Dilma nem Temer, por achar o Vice tão culpado quanto ela. E isso porque a corrupção governamental, sendo sistêmica e não apenas pessoal, induz qualquer político (presidente, governador, prefeito, deputado, senador) a abusar do poder econômico (caixa um ou dois). Apregoava eu, então, a necessidade de uma nova eleição direta, proibindo a candidatura de todos os parlamentares pelo pecado de cumplicidade ou omissão, que pode configurar crimes de prevaricação..

 

            Infelizmente, até agora, o sistema político-eleitoral não foi alterado e nós continuamos sofrendo as conseqüências do desastroso conluio entre políticos e empresários, escancarado pela Operação Lava Jato.   Como afirmou o saudoso humorista Millôr Fernandes, “acabar com a corrupção é o objetivo supremo de quem ainda não chegou ao poder”.  Ironia profunda e verdade incontestável pois, uma vez eleitos, os políticos entram em esquemas de fraude para pagar as dívidas da campanha eleitoral e fortalecer as bases partidárias, visando a renovação de seus mandatos.       Fazendo da política uma profissão bem lucrativa para si e seus compadres, a grande maioria dos homens públicos acaba traindo os ideais alardeados na campanha eleitoral ao prometerem trabalhar para o bem da coletividade. Tal "doutrina" política é bem antiga e muito praticada em países culturalmente pouco desenvolvidos. É de Oscar Ameringer (1870-1943), pensador socialista norte-americano, a seguinte definição:"A política é a arte pela qual os políticos obtêm contribuições de campanha dos ricos e votos dos pobres, com o pretexto de proteger cada um dos outros".

            Por isso, antes de uma reforma profunda do atual sistema governamental, qualquer eleição deveria ser considerada imoral, injusta e antidemocrática, pois viciada em sua origem pelo abuso do poder econômico. Como um cidadão honesto e competente, mas sem recursos próprios, poderia enfrentar uma custosa campanha eleitoral, competindo com candidatos já amparados pela máquina do Estado, por currais eleitorais ou por financiamento de empresários ou banqueiros? Os poderosos, simplesmente, compram o voto da massa popular mais carente e desinformada, em troca de uma bolsa, de um remédio, de um favor qualquer. Para quebrar este domínio escravagista só o advento de uma nova ordem social.

 

Salvatore D' Onofrio 
Dr. pela USP e Professor Titular pela UNESP 
Autor do Dicionário de Cultura Básica (Publit)
Literatura Ocidental e Forma e Sentido do Texto Literário (Ática)
Pensar é preciso e Pesquisando (Editorama)
www.salvatoredonofrio.com.br
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