POR OCASIÃO DO PASSAMENTO DA INCONFIDÊNCIA MINEIRA “O ALFERES JOAQUIM JOSÉ E A SITUAÇÃO NACIONAL”

 Por : Paschoal Motta

Por governar absoluto, governo de rei não admite crítica, não conhece reprovação de seus belos prazeres. Um cego de leitura mal avança em frente, tateia numa sombra; vira cavalo com viseira; só obedece rédea, chicote nele. Bem sempre repisava Cônego Luís em pé de conversa explicativa, respeitante política estrangeira: leitura histórica, bem ensinando: palavra falada avoa no vento; escrita, demora, continua dizendo em todo sempre. Declarava meu diretor, o Cônego, primeiro lendo letra ou pronunciando em língua latina, em qual proceder comprova ainda, espero, especial aprazimento, que vivo existe; depois, em corriqueira linguagem nossa. Em papel, uma escrita canta glória, chora, condena miséria, denuncia desmando, enobrece herói, esclarece entendimento; derruba coroa de rei na poeira, ah, isso pode; só ver estrondoso sucedido com os americanos do Norte. Escola aqui, já ultrapassado da propícia época, eu frequentava aula de ciência odontológica, vivia subido na profissão, em alta inteligência. Uma de Medicina? Uma vocação sempre viveu nesta cabeça num geral por decifrar um de tudo; mal, assim mesmo, cheguei té primeiras letras, soma, diminuição, multiplicação.  Algum aprendido depois vinha chegando  na custa de impertinente vontade, lendo; escutava com devoção cada novidade. Não pensem que larguei imaginar em cima dessa nova riqueza brasileira: classe de aula té para escravo, índio.

 

A bem duma pura verdade, pedido importante, tido por besteirinha, presunçãozinha dum reles brasileiro, propondo melhor estado para este País, regressa de Lisboa, indeferido pelo Conselho Ultramarino. Disso vivi sofrida experiência na própria carne, daquela vez com invento para aproveito em meter umas águas do Rio Maracanã, aqui  no Rio de Janeiro, a fim duma organizada distribuição, usança dela por chafariz em ponto estratégico: adequadamente espalhados em ruas desta cidade afora; ainda instalação de moinhos para moer grão. Isso sem tocar num projetado trapiche destinado a embarque, desembarque de animal bovino, equino, suíno, caprino, indo, vindo, via do mar, sem molesto como em jornada em terra, onde nem trilha existe; além de prestar os ditos trapiches numa guarda, segura, reservada, para mercadoria de variada qualidade, em abrigo de chuva, outra intempérie. Acontecia com melhor conforto para pobre, para rico; eu embolsava algum dinheiro, ganhava respeito. Inclusivamente na comissão em anunciar nossa liberdade.

Vai, vem navio, o Conselho Ultramarino enrolava, entravava deferição de adequado sucesso para esta população, concernente a meu processo. Naquela altura, desgostoso com recusa em cima de recusa, protelação em cima de protelação, começo espalhar, semear, animoso no ânimo, precisão de fugir da rédea portuguesa, da viseira reinol; me soprava um sopro, um fogo, ideia duma revolução, para brasileiro praticar necessário em sua felicidade. Um desabrido, feito esta minha pessoa, perdido por meio, perdido por inteiro, imaginava, calculava. Aí, principio, resoluto, arregimento duma sociedade, para assim sacudir, urgente, em aprazada ocasião, marcada hora, essa canga estrangeira, desumana, da cacunda nacional.

 

 

Por governar absoluto, governo de rei não admite crítica, não conhece reprovação de seus belos prazeres. Um cego de leitura mal avança em frente, tateia numa sombra; vira cavalo com viseira; só obedece rédea, chicote nele. Bem sempre repisava Cônego Luís em pé de conversa explicativa, respeitante política estrangeira: leitura histórica, bem ensinando: palavra falada avoa no vento; escrita, demora, continua dizendo em todo sempre. Declarava meu diretor, o Cônego, primeiro lendo letra ou pronunciando em língua latina, em qual proceder comprova ainda, espero, especial aprazimento, que vivo existe; depois, em corriqueira linguagem nossa. Em papel, uma escrita canta glória, chora, condena miséria, denuncia desmando, enobrece herói, esclarece entendimento; derruba coroa de rei na poeira, ah, isso pode; só ver estrondoso sucedido com os americanos do Norte. Escola aqui, já ultrapassado da propícia época, eu frequentava aula de ciência odontológica, vivia subido na profissão, em alta inteligência. Uma de Medicina? Uma vocação sempre viveu nesta cabeça num geral por decifrar um de tudo; mal, assim mesmo, cheguei té primeiras letras, soma, diminuição, multiplicação. Algum aprendido depois vinha chegando na custa de impertinente vontade, lendo; escutava com devoção cada novidade. Não pensem que larguei imaginar em cima dessa nova riqueza brasileira: classe de aula té para escravo, índio.

A bem duma pura verdade, pedido importante, tido por besteirinha, presunçãozinha dum reles brasileiro, propondo melhor estado para este País, regressa de Lisboa, indeferido pelo Conselho Ultramarino. Disso vivi sofrida experiência na própria carne, daquela vez com invento para aproveito em meter umas águas do Rio Maracanã, aqui, a fim duma organizada distribuição, usança dela por chafariz em ponto estratégico: adequadamente espalhados em ruas desta cidade afora; ainda instalação de moinhos para moer grão. Isso sem tocar num projetado trapiche destinado a embarque, desembarque de animal bovino, equino, suíno, caprino, indo, vindo, via do mar, sem molesto como em jornada em terra, onde nem trilha existe; além de prestar os ditos trapiches numa guarda, segura, reservada, para mercadoria de variada qualidade, em abrigo de chuva, outra intempérie. Acontecia com melhor conforto para pobre, para rico; eu embolsava algum dinheiro, ganhava respeito. Inclusivamente na comissão em anunciar nossa liberdade.

Vai, vem navio, o Conselho Ultramarino enrolava, entravava deferição de adequado sucesso para esta população, concernente a meu processo. Naquela altura, desgostoso com recusa em cima de recusa, protelação em cima de protelação, começo espalhar, semear, animoso no ânimo, precisão de fugir da rédea portuguesa, da viseira reinol; me soprava um sopro, um fogo, ideia duma revolução, para brasileiro praticar necessário em sua felicidade. Um desabrido, feito esta minha pessoa, perdido por meio, perdido por inteiro, imaginava, calculava. Aí, principio, resoluto, arregimento duma sociedade, para assim sacudir, urgente, em aprazada ocasião, marcada hora, essa canga estrangeira, desumana, da cacunda nacional.

 

 

 Eu, Tiradentes, de PASCHOAL MOTTA, Ed. Lê, 3ª. edição,  BH, 1994)

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