PAÍS SITIADO

Por : Juarez Cruz

Durante décadas políticos e juristas de todas as esferas, empresários e setores mais abastados de nossa sociedade fecharam os olhos para a população invisível do país: os pobres das grandes e pequenas cidades do Brasil. Os governantes municipais, estaduais e o governo federal os deixaram entregues a própria sorte, sem atender o mais elementar direito que eles tanto precisam para viverem de forma igualitária nesta sociedade selvagem e capitalista, excludente, reacionária que é oferecer uma educação de qualidade. Um povo sem educação esta fadado a viver a margem da sociedade, consequentemente longe do poder econômico, político e social e sempre em desvantagem na luta de classes que se da ao longo de séculos e séculos entre ricos e pobres do país.

 

Ao que me parece deixar a parcela maior da população longe de uma boa formação escolar é uma estratégia das classes dominantes como forma de dominação, exploração e manutenção do controle econômico e politico do Estado. A elite sabe que quem não sabe discernir e pensar não vai estar apto a competir, não vai estar apto para defender seus interesses e, buscar assim sua inserção dentro da sociedade, deixando apenas para ela, a elite, esta competência para poder controlar as riquezas produzidas no país. 

Esta forma de dominação é mesquinha, retrógada, ordinária e esta causando uma convulsão social muito grande no país e a população começa a reagir e a fazer barulho nos ouvidos da elite brasileira que tenta se mobilizar para conter esta reação e na manutenção de seu status quo.

O primeiro barulho veio após o fim dos governos militares dando inicio as grandes mobilizações populares e movimentos sindicais que resultou na eleição de um presidente oriundo do setor operário. Com a eleição de Luíz Inácio Lula da Silva(PT), o povo parecia ter finalmente dado seu grito de liberdade e passar um recado para a elite que tinha chegada a vez deles. Com a eleição de Lula o povo viu nela a oportunidade de ocupar um lugar ao sol e tentar reverter ou minimizar ao máximo das desigualdades sofridas ao longo de anos. Ledo engano. Nos treze anos do governo petista Lula não fez nada diferente do que todos os governos anteriores fizeram com o povo brasileiro. Governou o país dando peixe para matar a fome dos mais pobres, mas não os ensinou a pescar, enquanto isso a elite, que Lula tanto combaterá quando na oposição, continuava a comer o filé mignon e se esbaldava usufruindo as riquezas produzidas pelo país.

Só para lembrar com Lula lidou com a elite foi quando em seu governo ele chamou os usineiros de heróis brasileiros, os mesmos usineiros que exploram trabalhadores e, em alguns casos, mantinham trabalhadores nos canaviais em condições análogas ao de trabalho escravo. Beneficiou grandes empresas com dinheiro do BNDES(Banco Nacional de Desenvolvimento Social), as chamadas empresas amigas; financiou grandes empreendimentos em países africanos, Venezuela, Cuba, Bolívia, Nicarágua, com o mesmo(nosso)dinheiro do BNDES, além de adotar manobras politicas visando beneficiar grandes grupos do capital nacional e internacional na aquisição de setores econômicos importantes como energia, petróleo e gás, construção de hidroelétricas, telefonia e outros setores. Tudo sob o manto da corrupção que se dava entre seus principais auxiliares alojados nos mais importantes ministérios por ele indicado.

O segundo e grande barulho começou em Junho de 2015 com a volta da voz rouca das ruas dizendo não a corrupção, não ao governo petista. Com grito que estava preso na garganta para dizer chega, não somos idiotas. Finalmente o povo estava de volta às ruas, só que desta vez sem a presença das lideranças politicas, sindicais, movimentos sociais, religiosas, rural, enfim, sem nenhuma grande representação de classes. Esta mobilização popular só foi possível por que tivemos posições firmes de membros do Ministério Público Federal, Promotores e Procuradores Públicos, Tribunais de Justiças de diversos estados do Juiz federal Sérgio Moro, responsável pela Operação Lava Jato na primeira instância e do procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

Este barulho levou à prisão muitos empresários e políticos influentes de diversos partidos, e muitos outros estão na mira da justiça incluindo o ex-presidente Lula e o atual, Michel Temer.

O terceiro barulho está vindo de um segmento que então vivia escondido na escuridão de nossa sociedade, um segmento esquecido e abandonado pela elite, pelo Estado sempre alheio a sua existência: os presidiários. Este setor de nossa sociedade que até então ninguém se preocupava com sua existência, passa a reclamar também por direitos negados pelos poderes constituídos e clama por melhores condições de encarceramento; por maior agilidade nos julgamentos e no controle da superlotação dos presídios que transforma os seus ocupantes em animais selvagens na luta pela sobrevivência. A superlotação, além do desconforto para os detentos, propicia a formação de grupos de criminosos que se aproveitam da omissão do Estado para impor sua força e controle sobre os demais detentos e de dentro dela ditam quem vive e quem morre além de usar a estrutura penal para comandar ações criminosas fora das prisões, tudo isso com a conivência dos governos e seus prepostos: ministros e secretários de segurança pública estadual, da justiça e com a cumplicidade de (alguns) diretores e agentes de segurança de presídios que se deixam corromper pelo dinheiro fácil vindo do crime organizado. 

É este segmento da população que começa a se insurgir nas prisões e nas ruas, ameaçando a tranquilidade de nossos governantes que até então não faziam questão de vê-los como parte de nossa sociedade, e da população que começa a ficar acuada, presa em suas casas, enquanto os delinquentes perambulam soltos pelas ruas ameaçando a tudo e a todos, inclusive policiais militares que viraram alvos fáceis da bandidagem e estão sendo assassinados nas ruas a qualquer hora do dia.  De janeiro a outubro de 2016, 115 policiais foram mortos e 556 ficaram feridos no estado do Rio de Janeiro. Os dados somam 3.087 agentes das forças policiais do Estado do Rio de Janeiro mortos e 13.735 feridos entre 1994 e 2015 de acordo com levantamento feito pela PM. Na Bahia 23 policias foram assassinados em 2016; este ano, em 2017, em apenas cinco dias, 04 já morreram.

Para piorar esta situação de caos e intranquilidade os detentos são comandados por facções que tem líderes criminosos de altíssima periculosidade e que se atrevem a ameaçar o Estado fazendo exigências das mais absurdas como se eles pudessem tudo e o Estado nada.

“Somos criminosos, não moleques”, disse um dos chefes do PCC(Primeiro Comando da Capital), gravado na tarde do dia 19 de janeiro de 2017, a pedido do UOL e que se espalhou pelas redes sociais de todo pais, exigindo a retirada dos demais integrantes da facção Sindicato do Crime da penitenciaria de Alcaçuz, em Nisia Floresta (Grande Natal), ameaçando que o não cumprimento desta exigência iriam “estender a guerra” para a rua e atacar policiais em todo pais.

“Somos duas facções em guerra. Mas essa guerra é nossa, não é dos nossos familiares. Não admitiremos mais ser oprimidos. Estaremos preparados no sistema e na rua. Se mexerem com nossos familiares, responderemos à altura. Somos o crime organizado no Brasil, e os governantes sabem disso”, diz o integrante que lê a mensagem no vídeo.

É este terceiro e perigoso barulho está incomodando setores mais abastado de nossa sociedade e todo establishment do país que, assustados, não sabem como conter esta nova onda de manifestações e, atordoados, anunciam medidas ineficazes, atabalhoadas e de pouca eficiência no controle das muitas rebeliões que, como um vulcão em ebulição, ameaçam o estado de direito.

Diante desta ameaça iminente, o governo, acuado, além de divulgar medidas ineficazes através de seu ministro da Justiça, o falastrão, Alexandre de Moraes, vem agora de público, através do Ministro da Defesa, Raul Jungmann, anunciar o envio Forcas do Exército para conter os amotinados dentro de presídios do Rio Grande Norte. Lastimável. Chegamos a tanta desordem governamental que estamos usando as forças armadas para sufocar as rebeliões e executar um papel que não é o seu. Tomara que o tiro não saia pela culatra, pois se isso acontecer o Exército brasileiro pode sair deste evento com a imagem arranhada.

Isto mostra o desespero que o governo chegou diante do estado de sitio imposto pelo crime organizado que impotente não sabem como resolver este problema social. Este, simplesmente, é o resultado de um país que abandona sua gente e acha que pode viver eternamente em berço esplêndido como se todos devessem simplesmente obedecer sem reclamar, sem se manifestar e aceitar as regras de um jogo jogado por ele onde o povo sempre está no banco de reserva para torcer, aplaudir e esperar ser chamado para fazer parte do jogo depois dos 45 minutos do segundo tempo.

 

Juarez Cruz

Escritor e colunista

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Salvador-BA